O argumento ontológico e o pensar

Eu estou em grande dívida com o 5C. Por graça, meus confrades são compreensivos e me permitiram escrever mais esporadicamente em tempos de pouco tempo. Agradeço publicamente a eles pelo apoio que me foi dado e espero não demorar muito a ter uma vida mais ativa na blogosfera.

Este texto foi ao RVJ, mas foi pensado também para o 5C. Não redime minha falta de textos, mas espero que, ainda que curto,  leve-os ao louvor a que sou levado!

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Em seu blog, Gaspar de Souza publicou um resumo do argumento ontológico a partir da lógica modal e do conceito de mundos possíveis. Em termos gerais, o argumento diz o seguinte:

É possível pensar um ser que possui a máxima grandeza, isto é, um conceito de um tal ser é logicamente possível, não há qualquer contradição neste conceito, como haveria no conceito de um círculo quadrado, por exemplo.
Se é possível pensar um tal ser, então há algum mundo possível em que tal ser exista. Um mundo possível é um completo estado de coisas, uma realidade. Neste caso, não a realidade atual, mas uma realidade possível.
Um ser que possui a máxima grandeza é tal que se há um outro ser que exista em mais mundos possíveis que ele, então ele deixa de ter a máxima grandeza. Assim, é necessário que este ser exista em todos os mundos possíveis.
Se um ser existe em todos os mundos possíveis, então este ser existe no mundo atual, e se um ser existe no mundo atual, então ele existe.
Portanto, o ser que possui a máxima grandeza existe!

A principal crítica a este argumento é que ele pressupõe a existência do ser com a máxima grandeza (petição de princípio). Assim, bastaria pressupor a premissa que um ser com a máxima grandeza não existe para que todo o argumento ruísse. Embora eu desconfie da força de prova dos argumentos para a existência de Deus, não estou disposto a aceitar muito facilmente esta crítica, como a tenho visto. Obviamente o ser que possui a máxima grandeza é Deus. Isto é mesmo uma pressuposição. Mas o argumento não a menciona. Ele inicia não de uma definição de Deus como o ser de máxima grandeza, mas de um conceito logicamente possível. E o “salto” da possibilidade para a necessidade é dado pelo conceito de forma lógica, sem a necessidade da pressuposição de existência atual do objeto do conceito.

Porém, por outro lado, admito de pronto que o argumento não convence. Uma das razões é a que já deixei indicada: embora o argumento seja puramente lógico e bem formulado, um ser de máxima grandeza não remete diretamente a um deus, e muito menos ao Deus Vivo em que creio, a não ser mesmo como um pressuposto. Como Plantinga, que propõe uma versão semelhante do argumento ontológico, eu também penso que o argumento não tem tanta força de prova da existência mesma de Deus, mas se firma como prova da racionalidade da crença em Deus. Mas acima de tudo, a razão porque não cedo ao argumento é que não há argumentos que convençam quanto à crença fundamental em Deus ou no não-Deus. Tais crenças são fundantes e remetem ao credo ut intelligam...

É aqui que o argumento começa a ser capaz de me maravilhar! Pois em Deus há o conceito do absoluto por excelência. E o pensamento exige o absoluto (a quem me conhece vale repetir: sob o risco do ceticismo e do silêncio...). Todo outro conceito que tome seu lugar é a absolutização de um contingente. A propósito disso, tente substituir o conceito absoluto de Deus no argumento ontológico, como formulado acima, por uma destas fantasias que tentam ridicularizá-lo e verá que o conceito não será capaz de passar da possibilidade à necessidade. Pois ou a fantasia não é um absoluto de forma alguma ou será não mais que um nome de troça dado a Deus. Digo apenas que é temerária tal zombaria!

E veja: o argumento é mesmo capaz de me maravilhar! Porque o pensamento exige o absoluto. E o Deus que se revela nas Escrituras é o que se apresenta como o absoluto que o pensamento exige. Aquele ser que é de excelsa grandeza, maximamente excelente, é também aquele que é onipotente, onisciente e moralmente perfeito. Este é mesmo o Deus da tradição judaico-cristã. E o pensamento o exige! Porém, por que nos admiraríamos disso? Somos feitos à imagem do Logos para pensarmos conforme o Absoluto nos criou para pensarmos, em direção a Ele! Sim, o pecado nos atrapalha e a própria negação da Verdade confirma a Revelação daquele que É. Ora, o pensar, o bem pensar, leva inexoravelmente a Deus! Pensar é louvar!

SOLI DEO GLORIA!

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