Aos que não entendem os calvinistas

Uma querida e perplexa irmã comentou "a minha maior dificuldade com o calvinismo é entender por que eles não fazem nada, não se privam de nada, e criticam todos aqueles que estão 'correndo atrás' da salvação por crerem que tal é tomada por esforço. Bem, entendo melhor o calvinismo, mas me sinto mal, pois sempre acho que fiz pouco...". O que mais poderia responder a ela, além do que se segue?

A sua dificuldade, amada, não é com o calvinismo, mas com a graça. Sua rejeição ao calvinismo se deve à sua rejeição à graça como o modo de Deus salvar pecadores perdidos. Se você entendesse e aceitasse a doutrina da graça, como ensinada nas Escrituras, as dificuldades com o calvinismo se evaporariam.

Veja bem, você (permita-me a intimidade) disse que não entende por que os calvinistas não fazem nada, nem se privam de nada para obterem à salvação. À luz da graça, há duas razões para isso. A primeira, é que é desnecessário. Tudo o que era preciso ser feito para nos salvar, Deus já o fez. Uma vida de perfeita obediência era necessária? Jesus a viveu por nós. Uma morte que apresentasse pela satisfação à justiça de Deus precisava acontecer? Jesus a morreu por nós. Uma ressurreição vitoriosa que assegurasse nossa própria ressurreição era preciso? Jesus levantou-se dentre os mortos - e nós com Ele.

O segundo motivo por que os calvinistas desistiram de qualquer esforço para granjear a salvação (pois na verdade, muitos deles se esforçaram à exaustão antes de entregarem os pontos) é que todo esforço é inútil. Ninguém consegue obter o favor de Deus impressionando-o com boas obras, com ascetismo, legalismo ou qualquer outra coisa feita a título de "correr atrás". O evangelho diz "não depende de quem corre, mas de Deus usar misericórdia".

Anulado todo esforço humano, só resta a graça, de modo que se alguém não for salvo absolutamente de graça, não o será de nenhuma outra forma. E graça e esforço próprio são auto-excludentes. Paulo diz que "àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida". Ou seja, você pode "correr atrás" e ser salvo pela graça ao mesmo tempo. É uma coisa ou outra, mas só uma delas funciona.

Então é perfeitamente compreensível que você "corra tanto atrás", "se prive" de tantas coisas, "se esforce" ao máximo e mesmo assim "se sinta mal" por fazer tão pouco. Pois nunca será o bastante. Você jamais conseguirá reunir crédito suficiente para dar uma espiadela no céu, muito menos para por um pé lá. Ou você se deixa levar pela graça de Deus, desistindo de seu esforço próprio, ou este esforço te arremeterá com mais força no inferno.

Não confunda, porém, graça com libertinagem. "Pecaremos para que a graça abunde?", perguntaram ao apóstolo da graça. Sua resposta é um grito "de jeito nenhum! nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?". As obras do crente, são obras de gratidão. Não para alcançar a salvação, mas por te-la alcançado. Não por medo de perde-la, mas por amor ao que a garante. Não para evitar o inferno, mas porque estamos a caminho do céu.

Que o Senhor possa levá-la a descansar na Sua graça!

Soli Deo Gloria

Clóvis Gonçalves é blogueiro do Cinco Solas e escreve no 5 Calvinistas às segundas-feiras.

2 comentários:

Célio R. disse...

A Graça é algo realmente maravilhoso para quem entende, há pessoas que explico, explico o que é graça mas não entendem ou não querem, mas querem algum merito, pessoas e digo novamente muitas pessoas não entendem o que é graça, gosto muito da forma como escreve Clovis porque é simples, de fácil compreensão.

@igorpensar disse...

Clovis,

Seu texto é excelente. Simples e claríssimo. Penso que valeria a pena avançar o segundo bloco, deu vontade de continuar lendo.

Um fato presente em Efésios é que fomos salvos "por" graça "para" - observo o tom "teleológico" - boas obras. Vale a pena um texto que aprofunde isso, pois a coisa mais linda que existe para mim na lógica da salvação pela graça é uma nova relação com a obediência. Uma liberdade para obedecer! Talvez assim, esta irmã que se "esforça" tanto, descubra que pela graça as obras são agradáveis, deixamos de ser escravos do pecado, ou pagadores de um dívida paga, e que por Cristo nos tornamos servos da justiça (Rm 6), assim descobrindo a lei da liberdade (Tiago), obedecendo de coração à doutrina. Enfim, triunfando pela graça sobre a iniquidade (anomia), para que Cristo cumpra em nós o "justo preceito da lei" (Rm 8:4). Neste sentido, a justificação, não é apenas um ato declaratório, é uma "reabilitação à justiça", na medida que nos tornamos semelhantes a Cristo de glória em glória.

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