Que é o calvinismo? [5]


5. O calvinismo é uma forma de ver o mundo

A visão de Deus e do homem produz uma maneira de observar o mundo – a realidade criada. Alguns dos pressupostos reformados evidenciam a sua perspectiva peculiar em seu contato com a criação.

A compreensão da soberania de Deus, por exemplo, torna possível a ver mundo como “o teatro da glória de Deus”, como diria Calvino. Partindo de uma percepção adequada do Senhor, o reformado olha para a criação como ambiente da manifestação Divina, em graça e juízo.

Compreender a criação, imagem de Deus e queda do homem, permite ao reformado se relacionar com os seus pares de maneira sábia, sem superestimá-los ou o contrário. Ele vive os relacionamentos humanos com o equilíbrio de quem possui a mente de Cristo (1Co.2.16).

O reformado percebe que a maldição do Éden foi lançada sobre o planeta, e assim a terra é, de alguma maneira, maldita por causa do homem. Ao mesmo tempo, reconhece que o Senhor não retirou o seu mandato cultural dado ao homem. Isto significa dizer que, apesar da 
maldição por causa do pecado, ainda cabe ao homem cultivar a terra em seus mais diversos sentidos – produzir cultura.

Voltando um passo na discussão da “mente calvinista aplicada”, no âmbito das pressuposições o pensamento reformado já se destaca: uma das pressuposições reformadas é a de que são necessárias pressuposições adequadas para enxergar a realidade. Como no Sl.119.9, é preciso observar o seu caminho a partir da Escritura. O calvinista não é ingênuo a ponto de pensar que existe uma forma neutra de observar a realidade – ele caminha no sentido de aprimorar uma cosmovisão cristã, que brota da Escritura.

Quando fala em cosmovisão cristã, o reformado entende que cada aspecto da vida humana precisa estar submetido ao senhorio de Cristo. A implicação disto é que as dicotomias como sacro/profano são abandonadas, e tudo passa a ser pensado com a mentalidade cristã.

Os exemplos históricos disso são por demais variados – para os fins desta introdução, é suficiente observar a Política, a Filosofia, e as Artes.

No campo da Política homens como Calvino e Abraham Kuyper contribuíram amplamente. Calvino lançou bases que Kuyper a
proveitaria posteriormente para fundar o partido anti-revolucionário (ele chegou a ser Primeiro Ministro da Holanda). Vivia a política a partir da perspectiva reformada.

No âmbito da Filosofia, o nome de Herman Dooyeweerd merece destaque. Este filósofo e jurista (também) holandês desenvolveu um projeto filosófico, denominado Filosofia da Idéia de Lei, ou Filosofia Cosmonômica – intimamente ligado à Filosofia Reformacional. O modo de pensar calvinista aplicado à Filosofia deu origem a um sistema que busca observar a realidade de maneira integrada, respeitando as esferas de soberania, e percebendo os elementos estruturais e direcionais para uma vida adequada.


Rembrandt é conhecido no campo das artes. O que talvez poucos saibam é que ele pintava a partir dos pressupostos reformados. Seu compromisso calvinista o levou a cumprir a sua vocação com obras admiradas até hoje.
Alguém perguntaria: “mas o calvinista não observa a Queda como elemento comprometedor da humanidade?”. É certo que sim, mas há outro lado nessa moeda. Assim como o pecado afetou o homem em todas as suas faculdades, a graça de Deus continua a capacitar os indivíduos para o cumprimento de sua vocação. A doutrina da Graça comum permitiu aos reformados contemplarem o belo na cultura, e se engajarem em seu contexto com verdadeira esperança de redenção.

O calvinista não foge da realidade, ele luta para transformá-la, entendendo que a natureza geme, aguardando a restauração de Deus (Rm.8.18-27).

*PS: não sou eu na foto (ela foi retirada daqui).

Quer ler mais sobre esta proposição?

CARVALHO, Guilherme Vilela  Ribeiro de. Sociedade, justiça e política na filosofia de cosmovisão cristã: uma introdução ao pensamento social de Herman Dooyeweerd. In: ________. Cosmovisão cristã e tansformação. Viçosa: Ultimato, 2006. p.189-218.
DRISCOLL, Mark. Reformissão: como levar a mensagem sem comprometer o conteúdo. Niterói: Tempo de Colheita, 2009.
GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão, vol.3. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p.142-180.
MIGUEL, Luis Felipe. O nascimento da política moderna: Maquiavel, utopia, Reforma. Brasília: UNB, 2007.
SANTOS, Nilson Moutinho. Abraham Kuyper: um modelo de transformação integral. In: CARVALHO, Guilherme Vilela  Ribeiro de; et. al. Cosmovisão cristã e transformação. Viçosa: Ultimato, 2006. p. 81-122.
SCHAEFFER, Frank. Viciados em mediocridade: cristianismo contemporâneo e as artes. São Paulo: w4, 2008.
SKINNER, Quentin. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Companhia das letras, 1996. p.465-616.
SOUZA, Rodolfo Amorim Carlos de. O senhorio de Cristo e a redenção das artes: um olhar sobre a vida, obra e pensamento de Hans Rookmaaker. In: ________; et.al. Fé cristã e cultura contemporânea. Viçosa: Ultimato, 2009.

Allen Porto é blogueiro do A Bíblia, o Jornal e a Caneta, e escreve no 5 calvinistas às quintas-feiras.

1 comentários:

Helder Nozima disse...

Allen,

Creio eu que é exatamente porque o calvinismo é uma cosmovisão abrangente que ele consegue propor uma teologia bíblica que, de fato, abarca toda a revelação. E, mais do que isso, tem uma dimensão prática muito grande, embora nem todos reconheçam ou vivam isso, mesmo em searas reformadas.

Abraço!

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