De “mistérios” e mistérios!

Mais uma viagem a trabalho. Mais uma postagem da série “era uma vez no meu blog”…

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Entre nós, reformados, há aqueles que, diante de alguns paradoxos do cristianismo, cedem imediatamente ao mistério. Não que não pensem nestes mistérios, pois certamente se maravilham com eles. Nem que o ceder seja exatamente um erro. Porém, aqueles que se colocaram na estrada em que a razão redimida é guiada pelo Senhor, mesmo que se sintam satisfeitos com a distância percorrida, perdem a melhor parte se ficam pelo caminho.

É o que ocorre, por exemplo, quando se debate a questão soberania de Deus versus livre-arbítrio humano. Muitos (e eu diria que é uma maioria significativa) vêem o mistério desde a simples menção do debate, afirmando que são verdades bíblicas a soberania divina e a liberdade humana. Outros se arriscam a tentar desvendar o mistério e começam a questionar sobre ele. Faço parte deste último grupo e, embora algo do mistério permaneça, ele é bem menos misterioso para mim! Pelo menos no sentido em que é comumente apresentado.

Para tentar demonstrar isso, isto é, que o mistério não é assim tão grande para mim, retomo e amplio uma reflexão já feita na série em que tratei a questão soberania de Deus versus livre-arbítrio humano (Soberania, liberdade e responsabilidade, Soberania, liberdade e responsabilidade: esclarecimentos e A responsabilidade), situando-a na discussão entre calvinismo e arminianismo, pois isso me ajudará a definir minha posição.

A posição arminiana afirma que só há responsabilidade se houver liberdade. E que só há liberdade se Deus limitar Sua soberania. Esta liberdade significa, portanto, uma autonomia, uma vontade livre ou, ainda mais propriamente, uma vontade autônoma. É importante fazer este desmembramento, pois, sobre o que foi discutido anteriormente, quero incluir a vontade. Assim, ficamos com os termos: Soberania (S), autonomia ou liberdade (A), vontade (V) e responsabilidade (R).

Continuando na posição arminiana, é claro que eles afirmam que para que haja autonomia, é necessário que haja vontade. Porém, não há identidade entre elas, isto é, embora a autonomia implique em vontade, a vontade não implica em autonomia. Além do foco, do ponto de partida, esta é a confusão que subjaz a todo pensamento que exige livre-arbítrio. Assim, partindo do homem, para que ele seja responsável, exige-se uma vontade livre e ao se exigir autonomia, exige-se limitação da soberania, ou seja, uma não soberania. Ele, o arminiano afirma: A^V^R^¬S.

Seu pensamento está coerente? Sim, está! Pelo menos até aqui. Pois, nesta discussão, apenas até este ponto, seu problema não é tanto lógico. É axiomático. Seu pressuposto fundamental é a liberdade humana e, para preservá-la, limita seu deus. Interessante notar que, quanto ao homem, apenas um ser absoluto poderia ser absolutamente livre. Não sendo o homem absoluto, uma liberdade sua que o seja é absurda! E quanto ao deus de seus pensamentos, este não é o Deus das Escrituras, pois este Se apresenta absolutamente soberano. Mas não é apenas quanto à soberania que este deus é menor que Deus. Pois, para que se limite, é necessário que mude. Exceto na Pessoa de Jesus, enquanto homem, não em Sua divindade, Deus é imutável! Não sendo imutável, em que atributo Seu Ele se manteria Absoluto? Não, este não é Deus, pois Deus é absolutamente Absoluto! Creio que explico melhor isto pelo que disse em outro lugar (De um deus menor que Deus):

Não entendo Deus como limitando a Si mesmo em qualquer de Seus atributos. Porém Ele limita-se em Si mesmo, isto é, Ele não contraria Sua própria natureza. E Sua natureza é ser necessário, eterno, infinito, ilimitado e absoluto. Sem esquecer que Ele é o Logos, a Origem e o Fim de tudo que é criado. É assim que Ele Se revela, e é assim que a razão pode pensá-lO.

Por exemplo, é da natureza de Deus ser justo. Assim, Ele, por Sua natureza, não pode ser injusto. Seu atributo de justiça, entretanto, é necessariamente eterno, infinito, ilimitado e absoluto como o é o próprio Deus. Deus é amoroso, e é impossível a Ele não ser amoroso. E Seu amor é necessariamente eterno, infinito, ilimitado e absoluto como Ele mesmo o é. Assim segue com cada e todo atributo divino!

Fico ainda a pensar em Anselmo e seu argumento ontológico. Se Deus é aquele de quem não se pode pensar algo maior, o deus arminiano nunca poderia ser o Deus do argumento. Pois um Deus que fosse absolutamente soberano é certamente maior que um deus que é limitado neste atributo de Seu Ser. Ora, mas é ele mesmo quem se limita em sua soberania, protestaria o arminiano. E acrescentaria: Ele é soberanamente não soberano! À parte da contradição, mesmo que um deus auto limitado seja potencialmente absoluto, este é menor que o Deus Absoluto em ato. Assim, Anselmo ficaria, muito provavelmente, escandalizado! De todo modo, as Escrituras, e não Anselmo, é que bastam para dizer quem Deus é. Pois elas são a Revelação que o Eterno faz de Si mesmo! E nelas Ele se apresenta como absolutamente soberano!

O calvinista, portanto, parte do pressuposto das Escrituras, do Deus Absoluto em todos os Seus atributos. Para ele, Deus não é limitado em nada em Sua soberania. Mas o que pensa ele da liberdade humana? Se cede simplesmente ao mistério, a liberdade, embora circunscrita ao desígnio divino, não-autônoma, é algo verdadeira. Ao pensar sobre o assunto, adentrando no mistério, irá adotar um conceito de liberdade numa gradação desde essa mesmo que o mistério apresenta, que já é algo limitada, até não aceitar liberdade alguma. A seguir eu apresento como minha mente trilha este caminho...

Não há dúvida que a soberania divina implica em uma vontade humana não-livre, não-autônoma. Mas não implica em uma não-vontade. Ademais, as Escrituras apresentam o homem como um ser volitivo. Assim, podemos de imediato afirmar: S^V^¬A. Aquela distinção de Calvino entre necessidade e constrangimento mencionada no segundo dos artigos anteriores é novamente útil para entender isso. Neste sentido, eu prefiro falar em termos de um agir necessário (¬A) e voluntário (V, que é o “não-constrangimento” de Calvino).

Mas e a responsabilidade? Ora, novamente de acordo com as Escrituras, somos responsáveis pelo que somos, refletindo naquilo que pensamos e fazemos. A alguns isto basta, e a responsabilidade é posta diretamente sobre o desígnio divino, sobre a soberania. Eu posso aceitar este argumento. Porém, ainda creio haver um papel importante da vontade. Este agir não constrangido, voluntário, bem pode colocar os homens racionalmente nus, indesculpáveis diante de Deus:

Tudo o que o homem caído é e quer e faz vai contra este propósito [doxológico], pela simples razão de ele ser o que é. Negar sua responsabilidade dizendo que não é, não quer e não faz não poderá lhe ajudar em nada. Ele nem mesmo poderá dizer isso de si mesmo sem que sua consciência o acuse! (de: A responsabilidade)

De todo modo, a vontade é determinada pela natureza e esta é determinada por Deus, soberanamente (o óbvio aspecto necessário da vontade). Assim, em última instância, e de acordo com as afirmações bíblicas, de onde tiramos nossos pressupostos, temos a soberania a determinar vontade e responsabilidade, sendo contraditória apenas em relação à liberdade: S^V^R^¬A.

Bem, isto tudo, para mim, faz do mistério algo bem menor do que parecia a princípio. Mas isso significa que não há mistério algum? Longe disso! Por um lado, as relações entre soberania, vontade, responsabilidade e liberdade estão equacionadas em minha mente de uma forma que considero satisfatória. Por outro lado, porém, a vontade sozinha me leva a um mistério que em nada minha mente soluciona: como nossa vontade pode ser absolutamente controlada e ainda ser nossa?

Não se deixe enganar. A questão é formulada de modo semelhante, mas não é igual à inicial, pois, como vimos, temos as relações estabelecidas. A questão aqui é aquela proposta pela dama verde de Lewis em Perelandra:

Pensava - disse ela, que era transportada pela vontade daquele que amo, mas agora vejo que caminho com ela. Pensava que as coisas boas que Ele me enviou me arrastavam para dentro delas como as ondas levantam as ilhas; mas agora vejo que sou eu quem nelas mergulha, pelas minhas próprias pernas e braços, como quando vou nadar. Sinto como se estivesse a viver nesse teu mundo sem teto por cima, onde os homens caminham indefesos sob o céu nu. E o encanto com terror também. O nosso próprio ser a caminhar de um bem para outro, andando ao lado d'Ele como Ele Próprio andaria, sem mesmo dar as mãos. Como é que Ele me fez tão apartada d'Ele? Como é que entrou no Seu espírito conceber tal coisa? O mundo é tão mais vasto do que eu pensava. Pensava que nós seguíamos caminhos já feitos, mas parece que não os há. O nosso ir faz o caminho. (LEWIS, C.S. Perelandra. Mem Martins: Publicações Europa-América)

Embora alguns possam ver uma contradição compatibilista em minha citação de Lewis (e eu assentiria, em parte), prefiro me concentrar no essencial: somos absolutamente dependentes ao mesmo tempo em que somos totalmente distintos dEle! Isto sim é um mistério a me maravilhar, em encanto com terror!

SOLI DEO GLORIA!

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PS: Devo esta postagem em muito a uma conversa que tive com meu irmão, amigo e confrade do 5 Calvinistas Helder Nozima. Alguns comentários feitos e trocados alhures também me ajudaram em alguns pontos.

Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve, sempre que consegue, às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

1 comentários:

ana claudia disse...

Olá graça e paz. Passando para conhecer seu espaço e parabenizá-lo pelo conteúdo. Na verdade, confesso que o texto pra mim é um pouco complexo, pois abrange muitos elementos. Mas o que absorvi do texto foi valioso. Me fez lembrar de Davi que era um homem de profunda meditação.Era também um homem que vivia em comtemplação e era também homem de revelação. E creio que ele se baseava em tres aspectos que não são tres fundamentos isolados. Ele se baseava na misericórdia de Deus , sua imutabilidade e sua soberania. Acredito ser necessário fundamentarmos nossa vida nessas verdades. Se quiser nos visitar será uma alegria.
blogdamulhercrist.blogspot.com

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