Eu disse em mais de uma oportunidade que simpatizo com o ceticismo. Não pelo efeito (nada) prático de suas incertezas, mas pelo seu reconhecimento de que a “rainha razão” é incapaz de conhecimento. Neste sentido, continuo a ter simpatia. Mas fiquei a pensar se o cético poderia ter crenças. Desconfiado quanto a critérios de verdade e justificação, fica claro que nenhuma crença será para ele conhecimento. Mas será que ainda assim ele não poderia ter crenças?
É claro que um ceticismo coerente não poderia afirmar qualquer crença, pois afirmá-la seria assumir que seja conhecimento. Se, num momento seguinte à afirmação, houver qualquer justificativa de que ela não seja conhecimento, será necessário um sem número de afirmações, sendo que elas próprias exigiriam ser conhecimento (ou, no mínimo, verdadeiras) e assim a auto-contradição cética é evidente.
Mesmo assim, o cético vive e lhe é impossível não crer. Suas crenças não tomarão a forma de conhecimento, mas permanecerão no âmbito da opinião. E, neste sentido, qualquer coisa que creia será válida, não importa que contraditória a uma outra coisa qualquer que ele também creia. Eis onde o desespero cético encontra o orgulho pós-moderno!
O que falta ao cético, tanto aos antigos quanto à sua versão pós-moderna, não é fé. Aliás, eu sempre acho cômica a diferenciação que os filósofos fazem entre a crença epistêmica e a fé. Procuram dar um sentido epistêmico já associando a crença à verdade ou, mais comumente, à justificação. Mas ora, simples crença não é verdade nem justificação. Não importa o malabarismo conceitual que façam, sempre que há crença, há fé, e, assim, fé o cético têm bastante em suas crenças, quaisquer que sejam!
Na verdade, os filósofos parecem preocupados em diferenciar a crença de uma fé cega, injustificada. Associam eles a fé cristã a esta fé cega, pois não baseada na razão, pensam eles. Por isso, convém mesmo diferenciar a fé comum da fé bíblica.
A fé comum crerá no que lhe convier. Desde o cético que não escapará da sua inútil experiência em crer ao sutil filósofo que buscará justificar suas crenças em um algo qualquer (ou muitos deles), todos se sujeitarão à fé da qual não podem escapar por ser própria de seu “aparelho cognitivo”. Novamente, apenas o cético coerente e não opinativo terá algum mérito aqui, ao reconhecer a incapacidade da razão humana, mesmo que nem isso ele possa afirmar.
A fé bíblica, no entanto, partindo deste mesmo aparelho cognitivo, segue o cético ao reconhecer sua incapacidade em alcançar a verdade e o conhecimento. Longe de se desesperar de conhecer, porém, a Verdade a Si mesma se lhe revela, lançando luz sobre o Fundamento Absoluto de todas as coisas a partir do qual todo conhecimento é possível. A fé bíblica não teme não conhecer. E Agostinho está certo em dizer que esta é a vida feliz! [1]
O que falta ao cético, tanto aos antigos quanto à sua versão pós-moderna, não é fé, portanto. É Fundamento! A fé comum, enfim, e não a bíblica, é que é cega, sem fundamento e irracional. E embora eu tenha direcionado todo este arrazoado aos céticos (com um foco especial nos pós-modernos), fica claro que toda filosofia não-cristã padece deste mesmo mal. Há magníficos arranha-céus construídos por eles, pensamentos de uma sutileza ímpar, a razão humana exercitada ao seu extremo. Porém todo edifício rui sobre seu frágil fundamento arenoso.
Apenas o cristão, com sua fé bíblica no Absoluto Deus, terá um Fundamento sobre o qual edificar seu pensamento. E não importa muito o tamanho do edifício que construa. Desde uma pequena igreja até uma imensa catedral, sempre terá a Verdade a assegurar seu conhecimento. Enquanto os enormes arranha-céus nem mesmo de fato o arranham, qualquer igrejinha, se realmente construída sobre a Rocha, levará o cristão aos Céus!
SOLI DEO GLORIA!
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[1] A teoria da iluminação agostiniana me faz lembrar a eleição incondicional e a chamada eficaz. E, se a iluminação é para a mente o que a redenção é para o coração, de fato isto é a beatitude!
PS: Aos que acompanham o RVJ há algum tempo, nada há de novo nesta reflexão, exceto a breve análise do ceticismo e do pós-modernismo via desmembramento da CVJ (com foco na crença). Até mesmo as imagens do pensamento como edifícios são velhas conhecidas (e não só vindas de mim)… Mas o ensino é a arte de dizer as mesmas verdades de vários modos e espero estar a dizê-las bem o suficiente! Aos leitores do 5C, estes podem ter a partir deste texto um bom resumo das ênfases do meu pensamento.
Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

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