Um vôo para bem além do nada

Hoje é dia de finados. Nós, protestantes, não costumamos dar muita atenção para a data. Ou eu, pelo menos, não dou nenhuma. Mas eis que hoje me pego pensando na morte. Um pouco por conta de uma tristeza sem razão, um pouco por uma saudade indefinível…

Eu não tinha a intenção de postar hoje. Mas meus pensamentos me levaram de volta a antigas reflexões. Revisitei pensamentos e relembrei minhas próprias palavras, registradas em duas postagens do meu blog que, creio, vale postar aqui também para, num dia em que muitos se entristecem por seus mortos, falarmos da esperança cristã! Eis os textos (apenas os dois últimos de uma série de três):

Shakespeare coloca bem o dilema nas palavras de Hamlet. Diz ele:
Ser ou não ser? Eis a questão. O que é mais nobre para a alma: o deixar-se morrer ou o lutar por sobreviver? Ah, morrer, dormir... Imaginar que um sono põe fim aos sofrimentos do coração e aos males infindáveis que constituem a herança da carne! Essa é uma solução desejável. Ah, morrer, dormir... Talvez até mesmo sonhar... Mas é justamente aí que está o ponto: o não sabermos que sonhos o sono da morte poderá nos trazer. Pois quem suportaria o mal do mundo se estivesse em suas mãos o poder de obter a paz eterna com um punhal?[1]
Quem quer que já tenha se debruçado a pensar na morte há de ter passado por este dilema. Por um lado ela se apresenta como desejável. Uma solução e um alívio para os males que inevitavelmente enfrentamos neste mundo. Por outro ela se apresenta como temível. Como sofrer suas dores? Que há de nos esperar do outro lado? Ah, o terrível temor do desconhecido!

Claro que a proposta de uma solução para o dilema dependerá da cosmovisão do pensador. Algumas serão propostas mais esperançosas, outras desesperadoras (a maioria delas, eu diria). Mas e a nós, cristãos, qual proposta cabe fazer? Qualquer que seja a tentativa em se propor algo, ela bem poderá passar por este mesmo dilema. Pois a morte para o cristão é desejável. E, embora o desconhecido tenha sido revelado e seja manifesto, ainda permanece algo de temível. Mas como tudo no cristianismo, o significado do desejo e do temor diverge do que há na proposta secular.

Antes de tudo, a morte, para o cristão, não possui uma conotação assim tão negativa. Ao contrário, a esperança inclusa nesta conotação subverte a própria maneira de se falar dela. Tal como num estranho conselho que eu li certa vez: “Esteja muitas vezes ao lado dos leitos de morte”. Num primeiro momento, isso soa macabro e deprimente. Mas não por quem deu o conselho. Não por quem passou pelo mesmo que o conselheiro. Este que assim fala é Spurgeon, e assim ele explica a razão para tão improvável recomendação: os leitos de morte…
São livros iluminados. Ali você lerá a poesia autêntica da nossa religião e aprenderá os seus segredos. Que gemas esplêndidas são levadas à praia pelas ondas do Jordão! Que lindas flores crescem em suas ribanceiras! Os mananciais sempiternos do país da glória lançam para o alto os seus jatos, e as gotas de orvalho gotejam deste lado da estreita corrente! Tenho ouvido humildes homens e mulheres na hora da sua partida falarem como inspirados, proferindo estranhas palavras, resplandecentes de superna glória. Não as aprenderam dos lábios de ninguém debaixo da lua; só podem tê-las ouvido quando estavam sentados nos subúrbios da Nova Jerusalém. Deus sussurra em seus ouvidos em meio às suas dores e fraquezas, e depois eles nos contam um pouco do que o Espírito lhes revelou. Largarei todos os meus livros, se puder ver os Elias do Senhor subirem em seus carros de fogo.[2]
A vida cristã é mesmo tão cheia de paradoxos! Pois é esta mesma esperança pelo porvir que faz o cristão desejar tão ardentemente tanto a morte quanto a vida. A morte é desejável não para acabar com tudo, não como num salto para o nada, mas é desejável para que tudo continue. Não como era, mas em uma transformada, uma glorificada plenitude. O desejo pela morte se revela um desejo pela vida, um desejo por ser. Como no mártir de Chesterton, que ele contrasta com o suicida:
O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. (…)
Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece, o outro, que tudo acabe.
Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada[3], e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio.[4]
Com tal esperança e com tal desejo, que tipo de temor há de ter o cristão em relação à morte? Não, o cristão não romanceia assim a morte, como se não houvesse temor algum. Ela é expressa consequência do pecado (“mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá”, Gn 2.17, NVI) e carrega em si todo o peso e a lembrança da queda. Desde um natural instinto de sobrevivência até ao medo das dores e enfermidades de quem parte e ao sofrimento dos amados que permanecem, todo o evento da morte está cheio de tristezas.

Uma belíssima passagem da mitologia de Tolkien reflete essas tristezas de forma poética. Eu lamento não poder expressar aqui toda a poesia que encontrei na citação que seguirá. Apenas quem tem alguma intimidade com a obra de Tolkien poderá me compreender com exatidão. Mesmo assim, considero que a citação vale a pena. Penso nela como uma avaliação de uma outra raça, os elfos imortais da mitologia, em relação aos homens mortais. Quando Aragorn, um homem, devolve a dádiva de sua longa vida a Eru Ilúvatar, sua bela rainha élfica, Arwen Undómiel, “provou o gosto amargo da mortalidade que assumira para si”[5]. Aragorn então lhe diz:
Senhora Undómiel, a hora é realmente difícil, mas ela foi feita no mesmo dia em que nos encontramos sob as bétulas brancas no jardim de Elrond, por onde agora ninguém caminha. E sobre a colina de Cerin Amroth, quando rejeitamos tanto a Sombra como o Crepúsculo, foi este o destino que aceitamos. (…)
Não lhe direi palavras de consolo, pois não há consolo para uma dor assim nos círculos do mundo. A escolha suprema se coloca diante de você: arrepender-se e ir para os Portos, levando para o oeste a lembrança dos dias que passamos juntos, que lá serão sempre verdes, embora não passem de um lembrança, ou então conformar-se com o Destino dos homens”.
Não, querido senhor – disse ela. – Essa escolha há muito não existe mais. Agora não há um navio que pudesse me levar para lá, e devo de fato me conformar com o Destino dos homens, quer queira quer não: a perda e o silêncio. Mas digo-lhe, Rei dos Númeronianos, só agora entendo a história de seu povo e de sua queda. Desprezei-os como tolos miseráveis, mas por fim sinto pena deles. Pois, se realmente esta for, como dizem os eldar, a dádiva do Um concedida aos homens, é uma dádiva amarga de receber.
Assim parece – disse ele. – Mas não nos deixemos derrotar no último teste, nós que há muito tempo renunciamos à Sombra e ao Anel. Devemos partir com tristeza, mas não com desespero. Veja! Não estamos para sempre presos aos círculos do mundo, e além deles há muito mais que lembrança. Adeus!
A tristeza de Arwen durou o restante de sua vida mortal, “a luz de seus olhos se apagara, e seu povo teve a impressão de que ela se tornara fria e cinzenta como o cair de uma noite de inverno, que chega sem uma estrela”[6]. Sim, o cristão compreende e passa por toda essa tristeza. Uma grande tristeza. Mas não maior que sua esperança. Embora a morte da mitologia seja uma dádiva e a morte real seja a consequência e um castigo pela desobediência da queda, fica clara no termo “dádiva” a esperança cristã do católico Tolkien no porvir. A dádiva mitológica de não estar preso aos círculos do mundo e esperar por algo mais que a lembrança é a mesma dádiva que o outro lado do Jordão nos reserva: ser!

O significado do desejo e do temor cristãos diverge do que há na proposta secular, eu disse. De que forma? O pensador secular seguirá Hamlet e se chamará covarde por temer a morte e refrear seu desejo por ela. E mesmo quando seu anseio vence o temor não lhe resta esperança em seu vôo para o nada[7]. O cristão também refreará seu desejo pela morte. Mas não por um temor maior que seu instinto por sobrevivência, e sim por sua ânsia, ainda maior que seu desejo pela morte, em servir ao seu Senhor enquanto Ele o mantiver neste mundo. Seu desejo pela morte é ao mesmo tempo um desejo pela vida! Porém, se tiver que passar por ela, contra seus instintos e em Seu nome, sua esperança o fará cantar: “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1.21, NVI). Alçará seu último vôo neste século. Aquele vôo para bem além do nada, ao encontro do Ser que lhe prometeu um ser eterno!

Para eterna honra e glória dEle somente! Amém!
……………………………………………..
[1] Esta é uma paráfrase minha, bem resumida, do monólogo de Hamlet (Ato III, Cena I de A trágica história de Hamlet, Príncipe de Dinamarca, de William Shakespeare), com o objetivo de enfatizar o dilema que se propõe. Veja a obra completa. Veja também uma outra interessante tradução do monólogo. Imagem: Hamlet e Horácio, por Eugène Delacroix.
[2] SPURGEON, C.H. Lições aos meus alunos, volume 2. São Paulo: PES, 1982.
[3] “Estaca x encruzilhada”, “martírio x suicídio”. Ao mencionar a encruzilhada, Chesterton se refere a um antigo costume cristão em que o suicida não poderia ser enterrado no cemitério. A estaca é referência ao instrumento usado para o martírio.
[4] CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
[5] Na mitologia de Tolkien, os elfos são imortais. Não que não morram, mas que quando morrem, não saem dos círculos do mundo, mas descansam em uma espécie de “salão do mortos”. Já os homens são mortais e a morte é considerada uma dádiva dada aos homens por Ilúvatar (Deus). Arwen renuncia à sua imortalidade em favor do seu amor por Aragorn.
[6] TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis: o retorno do Rei. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
[7] Não nego que o que se faz aqui é uma generalização “com-Deus x sem-Deus”, ou “cristianismo x não-cristianismo”. Provavelmente não se fará justiça à história do pensamento humano. Mas não pretendo discutir ou comparar pensamento por pensamento em relação ao cristianismo. Muito menos em espaço tão curto. Quem quiser que o faça, se for capaz!

Ao mencionar a obra O Senhor dos Anéis na minha postagem anterior, eu me lembrei imediatamente do filme. Do terceiro da trilogia, mais especificamente: O retorno do Rei. E me lembrei também da canção que o encerra, junto com os créditos: Into the West. Lembrei que, quando eu a ouvi ainda no cinema, ao invés de me levantar e sair, como a multidão fazia, fiquei lá sentado ainda, com o mesmo gosto de “quero mais” que senti ao ler o livro. Fiquei lá, tentando entender o que dizia a letra da canção. Iniciei, como qualquer um, a interpretar a música de acordo com o filme. Mas a música é triste... E é interessante como a música encaminha o pensamento de quem a ouve. Comecei a pensar na possibilidade da minha própria morte. E ao ouvir:
Why do you weep?
What are these tears upon your face?
Soon you will see all of your fears will pass away…
Safe in my arms you're only sleeping.
E logo a seguir:
The ships have come to carry you home.
And all will turn to silver glass.
A light on the water all souls pass.
Então comecei a interpretar a letra de outra forma. Então pensei que a música falava sim sobre a mitologia de Tolkien. Mas, assim como sua mitologia não esquece sua teologia, a letra tinha uma profundidade maior que a aparência. Ela falava da viagem dos elfos em direção às Terras Imortais do Oeste, onde os Valar habitam. Mas falava também da nossa última viagem. Falava mesmo também da morte.

Logo pensei em Jesus me dizendo aquelas palavras. Que a morte é apenas um dormir e que, mesmo ao passar por ela, eu estou seguro em Seus braços. E Ele mesmo afastará todos os meus medos para bem longe. Logo pensei que a morte não é uma escuridão. Ou é, mas apenas a princípio, pois tudo se transforma num vidro prateado, numa luz sobre a água pela qual todas as almas passam. E que um navio cinzento, tal qual a carruagem de fogo de Elias, virá um dia para me levar para o lar. Para meu verdadeiro lar!

Essa foi minha impressão de então. E essa foi minha lembrança ao escrever a última postagem. Mas hoje, ao pensar nisso tudo novamente, decidi buscar a letra da música na internet para confirmar ou negar minha impressão. Tive duas surpresas. A primeira é que eu estava certo e a canção é realmente belíssima, mais do que eu me lembrava dela. A segunda é que na Wikipédia (bem, nem sempre ela é confiável, mas acredito poder confiar nela neste caso) há uma entrada para esta música em português e que diz:
Nos comentários que acompanham a versão estendida do filme, o diretor Peter Jackson explica que a música foi parcialmente inspirada pelo jovem cineasta Cameron Duncan, que morreu de câncer prematuramente, e cujo trabalho impressionou Jackson e sua equipe. A primeira representação pública da música foi no funeral desse mesmo cineasta. (Ver: Into the West (música))
Não sei o que você entenderá da canção, meu caro leitor. Eu a entendo como falando da morte com a mesma tristeza e a mesma esperança sobre as quais eu tenho lhe falado. Porém, a poesia tem o poder de ganhar asas que levam cada um a ver nela bem mais do que o autor pretende. Por essa mesma razão você poderá interpretar tudo de modo bem diverso do meu. Mas isso não importa. Deixarei a canção mesmo lhe falar...
Into the west (Em direção ao oeste)[1]
Performance: Annie Lennox
Composição: Annie Lennox, Fran Walsh e Howard Shore

Repouse sua cabeça frágil e cansada.
A noite está começando.
Você chegou ao fim da jornada.
Durma agora.
E sonhe com aqueles que vieram antes.
Eles estão chamando desde as praias distantes.

Por que você chora?
O que são essas lágrimas no seu rosto?
Logo você verá que todos os seus medos passarão.
Seguro em meus braços você apenas dorme.

O que você pode ver no horizonte?
Por que as gaivotas brancas cantam?
Do outro lado do mar uma lua pálida se levanta.
Os navios vieram para te levar para o lar.
E tudo se transformará num vidro prateado.
Numa luz sobre a água pela qual todas as almas passam.

A esperança se desvanece num mundo de noite,
através das sombras que caem, fora da memória e do tempo.
Não diga que nós chegamos agora ao fim.
As praias brancas estão chamando!
Eu e você nos encontraremos novamente.
E você estará aqui em meus braços, apenas dormindo.

O que você pode ver no horizonte?
Por que as gaivotas brancas cantam?
Do outro lado do mar uma lua pálida se levanta.
Os navios vieram para te levar para o lar.
E tudo se transformará num vidro prateado.
Numa luz sobre a água, sobre a qual navios cinzentos passam em direção ao Oeste!
....................................………..
[1] Tradução feita por mim, com base na letra em inglês que se acha fácil na internet. Por favor, confie mais no texto original que na minha tradução.

Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

2 comentários:

Roberto Vargas Jr. disse...

Olá, Hélio.
Muito bom vê-lo por aqui!
Não li Ortega y Gasset, mas já vi citações o suficiente para saber que é uma leitura que devo fazer!
Obrigado pela visita e pelo comentário, que sempre nos acrescenta um pouco mais de reflexão!
No amor dAquele que nos livra da morte eternamente,
Roberto

Clóvis disse...

Roberto,

Eu estava devendo um comentário sobre este excelente texto. Apenas para dizer que gostei, que ouvi a música mais uma vez e lembrei-me do filme, com uma anotação mental de ler Tolkien.

Coincidentemente, antes de vir para este texto, estava lendo sobre a morte de Leila Lopes.

Em Cristo,

Clóvis

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