Soberania, liberdade e responsabilidade: esclarecimentos

Em relação à minha postagem Soberania, liberdade e responsabilidade, recebi alguns comentários e questionamentos que eu gostaria de, por meu turno, comentar.

O primeiro ponto diz respeito à acessibilidade. Isto é, alguns amigos me disseram que o texto, embora compreensível, não é tão fácil. Por um lado isto se deve ao fato de ser um texto curto, um padrão que adoto e procuro aplicar nos blogs. Fosse um texto mais longo, alguns pontos poderiam ser melhor explorados e desenvolvidos e, assim, tornar-se-iam mais claros.

Por outro lado, é sempre difícil, para mim, avaliar o quão acessível é meu próprio texto. A maior parte do que escrevo pode ser bem compreendida por qualquer pessoa, creio eu, mas admito que alguns textos meus não serão mesmo tão acessíveis, pois costumo fazer referências e algumas pequenas digressões que exigem, além de atenção, um pouco de conhecimento do leitor. Não que isso represente uma grande profundidade no meu pensamento (coisa de que não posso me arrogar), mas, como digo ser o objetivo do meu próprio blog, quero “ter meus pensamentos em ordem”. Isto é um tanto egoísta, admito, pois embora o texto seja dirigido a leitores, é a mim e não a eles, em primeiro lugar, que o pensamento interessa ser claro. Entretanto, no 5 Calvinistas terei um cuidado maior com o leitor. E por isso esta postagem de esclarecimento quanto a este ponto. Desde já, porém, peço compreensão, pois não posso, por conta de uma completa inaptidão, fugir muito deste estilo que já desenvolvi.

Porém, devo ainda dizer que considero essa dificuldade em textos algo salutar. Para mim, o ler textos de outros que fazem o mesmo (referências e digressões ou ainda outros recursos que tornam os textos difíceis) é sempre um desafio a me estimular na busca do conhecimento do que ainda não pude compreender. Se alguém lê um texto e desiste de entendê-lo por este ser difícil, será tanto pior para este leitor, que permanecerá na ignorância. Longe de qualquer comparação direta, lembro que Pedro ao mencionar as epístolas de Paulo, diz haver nelas “certas coisas difíceis de entender”, mas que não entendê-las é agir como “os ignorantes e instáveis” que as “deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (cf. II Pe 3.14-16). Assim, meu caro irmão, embora eu não esteja falando de escritos inspirados, se você ficou sem entender algum texto que fale e busque sinceramente a Verdade, meu ou de qualquer outro autor, exorto-o a que não desanime e busque conhecer, pois por eles, se eles se mantiverem fiéis às Escrituras, por causa delas, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32).

Mais diretamente em relação ao conteúdo da postagem, quanto às notações lógicas, é importante salientar que a conjunção (^) implica em que as duas proposições ligadas pelo “e” devem ser verdadeiras para que ela o seja. Senão nada teria sentido. Isto é, ao afirmar que “Deus é absolutamente soberano” e representar a afirmação pela conjunção lógica “S ^ ¬A”, o que está se dizendo é que a proposição “Deus é absolutamente soberano” só é verdadeira se a soberania divina (S) for verdadeira e também é verdadeira a não-autonomia humana (¬A). Entendendo esta notação, todo o restante do texto se tornará claro.

Ainda sobre a lógica, é bom salientar algo que não é mencionado na postagem, exceto pelas notações. As posições calvinista (S ^ R ^ ¬A) e arminiana (¬S ^ R ^ A) são contraditórias entre si, ou seja, se uma é verdadeira a outra é falsa. Não é uma questão menor, portanto. Ao contrário, a cosmovisão decorrente de cada posição divergirá enormemente, influindo sobre todo pensamento e ação. Ademais, não cedemos a qualquer relativismo. A verdade é sempre verdade e toda verdade é verdade de Deus. E o que não é verdade, enfim, é mentira. Assim, se cremos nas doutrinas da graça como verdade, por sua fidelidade às Escrituras, tudo que a contrarie é mentira! Além disso, se estamos a tratar da Verdade, e não levianamente, tal assunto nunca pode ser de menor monta!

Fui questionado também se o arminiano seria capaz de entender que a responsabilidade está colocada, conforme as Escrituras, sobre a natureza e não sobre a vontade do homem. Sinceramente, não espero que ele entenda. Seu pensamento é viciado desde o começo. Importa-me mais que o reformado que ainda está confuso a este respeito deixe de lado qualquer escrúpulo quanto a referir-se à liberdade do homem em termos absolutos. Neste sentido, resumidamente, a postagem diz que:

  1. O arminiano (e afins) paga um preço alto demais em seu pensamento ao limitar Deus em Seu atributo de soberania (ou outro atributo qualquer, para os afins) e não o homem em sua liberdade, enquanto o calvinista se mantém fiel ao Deus Absoluto das Escrituras. O primeiro cede ao humanismo secular (em alguma medida), enquanto o reformado só aceita um humanismo que seja bíblico (o homem como imagem de Deus, mas caído e carente de redenção por parte do Salvador).
  2. A responsabilidade e a liberdade do homem não implicam em que este seja autônomo, que seja seu próprio senhor ou que seja a medida de todas as coisas, incluindo ser a medida de seu conceito de Deus. Ao contrário, as Escrituras é que nos dão esta medida e tudo o que é (existe) só encontra significado em Deus, numa teo-referência. Assim, a verdadeira liberdade implica não em autonomia, mas em teonomia!

Por fim, preciso dar alguma satisfação ao Leonardo, que me questiona sobre os atos de Deus como um constrangimento (ver os comentários da postagem). Eu repito que não consigo deixar de ver os atos de Deus como únicos desde a eternidade e, assim, o realizar destes atos no tempo, ainda que sendo um mover de Deus, não me propõe constrangimento além do próprio desígnio eterno. Creio que a raiz de sua discordância, se não for puramente semântica, tem a ver com as relações eternidade/tempo. Mas prefiro não falar muito sobre isso aqui. É melhor citar Calvino, que não trata destas relações, mas define magistralmente a questão necessidade/constrangimento (As Institutas, Livro 1, Capítulo II, Artigo 48, da Edição Clássica, Ed. Cultura Cristã):

Alguns se aborrecem pelo fato de não poderem distinguir entre necessidade e constrangimento. Mas se alguém lhes perguntar se Deus não é necessariamente bom e se o Diabo não é necessariamente mau, que responderão eles? O certo é que a bondade de Deus é tão ligada à sua divindade que ele não é menos necessariamente bom do que é necessariamente Deus. E o Diabo, por sua queda, não pode fazer outra coisa senão o mal. Pois bem, se algum blasfemo murmurar que Deus não merece grande louvor por sua bondade, visto que ele é constrangido a tê-la, a resposta não será fácil? Porquanto, da sua bondade infinita é que resulta que ele não pode agir mal, e não de um constrangimento violento.

Isso não impede, pois, que a vontade de Deus seja livre para fazer o bem, e que faça necessariamente o bem. Se o Diabo não deixa de pecar voluntariamente, visto que nada pode fazer senão o mal, quem contestará dizendo que o pecado do homem não é voluntário, alegando que ele está necessariamente sujeito ao pecado? Como Agostinho, que ensina sempre a necessidade, não deixou de declará-lo com precisão, assim que Celestius fez calúnia contra esta doutrina, tornando-a odiosa. Ele emprega estas palavras: “Da liberdade do homem resultou que ele caísse em pecado; agora, a corrupção que se seguiu fez da liberdade necessidade”. Devemos então observar esta distinção: o homem, após corromper-se por sua queda, peca voluntariamente, e não contra o desejo do seu coração, nem por constrangimento. Ele peca, insisto eu, por uma fortíssima inclinação, e não por constrangimento forçado. Ele peca movido por sua própria cobiça, e não constrangido por outros. E, todavia, a sua natureza é tão perversa que ele não é estimulado, impelido ou induzido a outra coisa que não seja o mal. Se isso é verdade, é notório que ele está necessariamente sujeito a pecar.

SOLI DEO GLORIA!

Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

3 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Roberto,

Eu li há poucos dias um texto do John Piper sobre a responsabilidade humana enfocando a visão reformada. Ele diz que estes são os paradoxos bíblicos: como podemos ser ao mesmo tempo predestinados e ainda assim termos responsabilidade por nossas ações? É difícil compreender a questão aplicada à lógica humana (o próprio autor afirma).

A nossa mente limitada não consegue apreender profundamente as verdades bíblicas ocultas, por assim dizer, que envolvem a "vontade" e "motivação de Deus", exatamente por sofrermos da limitação terrena imposta pela nossa humanidade (carne). Assim penso. Eis porque alguns desses aparentes paradoxos fogem à nossa compreensão.

Na minha humilde visão penso que cabe a nós simplesmente reconhecermos a absoluta e imorredoura soberania de Deus em toda a nossa existência, mesmo quando não compreendemos inteiramente os Seus desígnios. Sobre o texto, imagino que temos uma "liberdade vigiada", cuja última palavra é sempre de Deus - colocando de uma forma mais simples (ou simplista). Tudo ocorre sob a permissão de Deus (exemplo é o Livro de Jó).

Engraçado que há poucos momentos eu estava falando exatamente sobre isso com a minha mulher: ela tentando entender a predestinação junto com a responsabilidade humana. E eu disse exatamente isto: nós vamos até onde e quando Deus permite. E essa compreensão tem que nos bastar!

Excelente Texto, como sempre.

Em Cristo.

Ricardo

Clóvis Gonçalves disse...

Renato e demais,

O problema neste debate com arminianos é a falta de definições claras. Para começar, eles não apresentam uma definição de livre-arbítrio, que varia de possibilidade de fazer escolha a capacidade de escolha contrária.

Quanto o debate é entre reformados, creio que a diferença entre responsável e livre fica mais nítida. O homem é sempre responsável e de maneira alguma sua responsabilidade viola ou anula a soberania plena de Deus. Mas não é livre na maioria dos sentidos, exceto talvez no sentido que suas escolhas são livres por serem de acordo com sua natureza.

Gosto da abordagem de Hodge, que diz que há três propostas para o universo: fatalismo, certeza e contingência. Este último é o universo dos arminianos. O primeiro é o universo dos pagãos, especialmente islâmicos. E o do meio, chamado de determinismo e atenuado pelo termo compatibilismo, é o do calvinismo. Pessoalmente sou determinista e acho que o termo compatibilismo mais embola o meio de campo do que ajuda.

O ponto é que a soberania divina limita a liberdade, mas não a responsabilidade humana e não nenhuma contradição entre soberania e responsabilidade.

Em Cristo,

Clóvis

Roberto Vargas Jr. disse...

Clóvis, meu caro,
Se eu fosse freudiano, eu te tascaria um ato falho. Mas como não sou... Como o Leonardo gosta de ouvir: desencana! rsrsrsrs
Mas e o esclarecimento sobre Hodge? Rola?
NEle,
Roberto

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