Embora eu não tenha afirmado assim categoricamente nos dois artigos anteriores sobre Soberania, liberdade e responsabilidade, mencionei que a responsabilidade não tem relação direta com a liberdade. Não biblicamente e não sem que tomemos esta relação como axiomática. E já que queremos tomar nossos axiomas das Escrituras, não há qualquer razão para assumirmos tal relação. Se alguém ainda quiser dizer que isto não é certo, que prove biblicamente e de forma não axiomática que “não podemos ser responsabilizados por nossas ações sem que tenhamos livre-arbítrio (autonomia)”. A propósito, não me importarei se o leitor me considerar cansativo por repetir: o axioma reformado é a afirmação de Deus e de Sua autorevelação. Por isso a afirmação reformada da Soberania e a negação da autonomia (sem prejuízo da responsabilidade)!
Isto posto, quero retomar a afirmação que, no mesmo artigo, tomei emprestada de A.W. Pink sobre a responsabilidade: “O ponto de vista reformado, com relação a responsabilidade moral do homem, é mais profundo e bíblico do que o arminiano; pois afirma que o homem não é responsável pela sua vontade, mas sim pela sua natureza de pecado que gera a vontade; enquanto permanecer nesta condição, não pode desejar nem entender as coisas de Deus”[1]. É interessante notar como essa afirmação se encaixa perfeitamente no discurso de Calvino quanto à diferença entre necessidade e constrangimento. Pois alguém age, voluntariamente, de acordo com sua natureza. E isto necessariamente. Enquanto em pecado segundo sua natureza caída para o pecado: a servidão voluntária ao pecado. Após a redenção segundo sua natureza redimida em Cristo: a servidão voluntária à justiça (cf. Rm 6). Assim, a responsabilidade nos leva a perdição se permanecemos em nossa natureza caída. Mas nos conduz à bem-aventurança se temos a natureza redimida por Cristo! E aqui se vê, sempre de novo, a ausência de mérito humano. Pois ao pecador redimido sua justificação se dá pelos méritos de Cristo, “porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). E resta-lhe dar glórias sem fim Àquele que por Suas virtudes o chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz (cf. I Pe 2.9)!
Porém, eu gostaria não de repetir-me, mas dar um passo além. R.K. McGregor Wright[2] faz uma interessante exposição da responsabilidade bíblica quanto à ontologia (o ser), à ética (o certo e o errado), à epistemologia (o conhecimento), e à teleologia (a finalidade). Antes, porém, ele define a responsabilidade bíblica como um “prestar contas”, como a necessidade de “responder diante de Deus, o juiz, por nossas ações”. É interessante citá-lo, resumidamente, e relacionar cada um desses pontos à definição de Pink. Eu não tenho a intenção de uma análise mais rigorosa ou detalhada, mas de compartilhar uma reflexão a respeito. Quem sabe esta introdução ao assunto possa gerar em algum leitor o desejo por um estudo mais aprofundado[3].
1. Ontologia
Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o Criador e nós somos criaturas. Deus tem liberdade de chamar qualquer elemento de sua criação para responder diante dele a qualquer hora - é simplesmente sua prerrogativa como Senhor Soberano.
Deus é Soberano e pode dispor de tudo aquilo que é Seu como Lhe apraz. Embora isso soe arbitrário a ouvidos sensíveis, assim é. O que a mim é cômico é que os mesmos que dizem que dispor do que é seu desta forma é arbitrário em Deus não o consideram como arbitrário quando quem dispõe são eles mesmos. Ah, muito diferente, dizem eles. Sim, claro que é. Pois Deus dispõe do que é seu absolutamente, enquanto eles apenas de forma contingente. Mas não é a isso que quero me referir...
Interessante, ao se falar do ser, é que o homem, em sua natureza caída, não é o que deveria. Tudo que é encontra seu significado em Deus (teo-referência). O ser humano significa ser a imagem da glória de Deus na criação. Era para ele ser imagem e semelhança de Deus e ao negar esta imagem em si, ao preferir o pecado à justiça, conforme sua natureza, será tanto mais responsável quanto mais sua natureza seja corrompida. Porém, se bem que algo dessa imagem permaneça, ela está completamente corrompida pelo pecado (cf. Rm 3.10-18). Esta é a extensão de sua responsabilidade ontológica.
Aquele que o Senhor chamar, no entanto, este terá sua natureza redimida. “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). Por Deus restaurada sua imagem ao que deveria ser, portanto, livre estará o homem da condenação pelo pecado!
2. Ética
Somos responsáveis diante de Deus porque ele é o ponto de referência moral para o que é certo e errado, e não nós próprios. Isso é o que é vinculado ao nosso reconhecimento de Deus como santo. Nossa responsabilidade diante de Deus é uma necessidade ética, por causa de nossa necessidade de um padrão fora de nós mesmos.
O homem, este ser volúvel, quer ser medida, se não de todas as coisas, da maioria delas. Quer ditar as normas para si mesmo. Quer fazer-se absoluto. Como se admirar que ele tenha determinado que verdades não existem, que o certo e o errado dependam de tempos, utilidades, sentimentos...? É assim sempre que o homem se vê autônomo e como o padrão para si mesmo.
Assim, em sua natureza caída, o homem é incapaz de reconhecer-se sujeito ao padrão divino. Facilmente chama ao mal bem e ao bem, mal (cf. Is 5.20). Ai dele, pois o peso de sua responsabilidade faz a balança pender para a condenação eterna.
Aqueles que têm sua natureza redimida, por outro lado, embora em sua jornada cristã provavelmente ainda empreendam batalhas contra o velho homem (cf. Rm 7 13-25), eles terão abandonado qualquer noção de autosuficiência e qualquer tentativa de reger-se por si mesmos. Na teo-referência da vida que foram chamados a viver não há lugar para a autonomia, mas teonomia. Eles se sujeitarão a Deus, e por estarem sujeitos a Ele, estão também sujeitos à Sua lei, reconhecendo-a como justa, boa e santa!
3. Epistemologia
Somos responsáveis diante de Deus pelo conhecimento que temos. Todos os pecadores pecam (mais ou menos) contra a luz e verdade. Ninguém é destituído totalmente da luz da consciência, e seremos julgados de acordo com a luz que temos (Rm 2.12-16).
Eu prefiro não usar minhas próprias palavras, neste caso. Quatro passagens bíblicas encerrarão o assunto:
O perverso, na sua soberba, não investiga; que não há Deus são todas as suas cogitações (Sl 10.4).
A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos (Rm 1.18-22).
E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8.32).
Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres (Jo 8.36).
Não seria mesmo necessário dizer mais nada. Mas para que fique explícito... Toda natureza caída nega o conhecimento de Deus. O homem é responsabilizado por negá-lO. O homem que Deus regenerar, no entanto, este O conhecerá. E assim, pois, será de fato livre!
4. Teleologia
Somos responsáveis porque o propósito da criação é a glória de Deus (Is 43.7; Ap 4.11), e somos responsáveis como mordomos das bênçãos de Deus para cumprir o fim ou o propósito de Deus em criar-nos no mundo.
Como se pode adivinhar, o raciocínio se repetirá aqui como em cada aspecto anterior, sempre com a natureza caída levando o homem, necessária, porém voluntariamente, a se afastar daquilo que este aspecto deveria ser, tornando-o responsável e culpado por suas ações... E depois a natureza redimida pelo Senhor trazendo cada aspecto em que o homem seja analisado de volta à sua integridade. Acredito que outros aspectos possam ser pensados, e não será difícil ver o pecado corrompendo tudo o que não for redimido por Cristo.
Mas vale repetir o raciocínio quanto a este último aspecto. Pois, qual é o fim do homem? Para que ele foi criado? Como bem aponta o Catecismo Maior de Westminster em sua primeira questão: “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. A finalidade do homem, a razão de seu ser é doxológica: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (I Co 10.31). Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11.36).
Como poderá então uma imagem divina corrompida glorificar a Deus? Como poderá alguém que se julga autônomo glorificar Aquele que rege toda a criação? Como poderá uma mente que O nega glorificá-lO? Como poderá a natureza corrompida cumprir seu propósito de glória ao Santo? Não pode! Pois tudo o que o homem caído é e quer e faz vai contra este propósito, pela simples razão de ele ser o que é. Negar sua responsabilidade dizendo que não é, não quer e não faz não poderá lhe ajudar em nada. Ele nem mesmo poderá dizer isso de si mesmo sem que sua consciência o acuse!
Precisamente por isso é que a alma redimida será capaz de cumprir seu propósito de glória. Não porque seja ela mesmo capaz, mas por ser por Deus capacitada. A alma redimida é em si mesma a mais humilhada e despida de qualquer orgulho ou pretensão de bastar-se a si mesma. E em humilde disposição se eleva ao Senhor em gratidão, louvor e adoração, reconhecendo que glória alguma nela há exceto aquela que é de quem a redimiu e fez nela morada.
Se doxológico é nosso fim, portanto, glórias a Deus darei eternamente:
Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nem um só de seus benefícios. Ele é quem perdoa todas as tuas iniqüidades; quem sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia (Sl 103.1-4).
Aleluia! Louva, ó minha alma, ao SENHOR. Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver (Sl 146.1-2).
SOLI DEO GLORIA!
............................................
[1] Pink, A.W. Deus é Soberano. São José dos Campos: Fiel, ?.
[2] McGregor Wright R.K. Soberania banida. São Paulo: Cultura Cristã, ?.
[3] As referências acima e os textos citados neste artigo podem ser conferidos nos links: O Calvinismo Inconsistente e Soberania de Deus versus autonomia humana, que são também mais alguma reflexão a respeito.
Roberto Vargas Jr. é editor do blog homônimo e escreve às sextas-feiras no 5 Calvinistas.

0 comentários:
Postar um comentário